Segundo
Francisco de Assis Silva e Pedro Ivo de Assis Bastos a região do Contestado
ficava entre os Estados do Paraná e Santa Catarina e ocupava uma área de
aproximadamente 48.000 km². De acordo com os mesmos autores:
"No
início deste século a região foi ocupada por uma população de aproximadamente
50 000 camponeses e desempregados expulsos de outras regiões por latifundiários
e por ávidas companhias colonizadoras, que depois vendiam estas terras para
imigrantes alemães, poloneses, austríacos e outros"[1].
Os autores também dirão que essas
pessoas sofridas uniram ao beato José Maria, movidos pelo desejo da posse da
terra e estimulados pela fome, porque acreditavam em um “Reino Milenarista” e
por isso era denominado Monarquista. O governo enviou tropas para destruir as
“vilas santas” dos aliados de José Maria e Setembrino de Carvalho conquistou a
região de Contestado.
O livro de Ivone Cecília D’Avila
intitulado de O Contestado: o sonho
do milênio igualitário obra que procura resgatar tradições e a cultura de Santa
Catarina e Paraná entre 1912 e 1916 por meio da Guerra do Contestado analisa o texto
bíblico de Apocalipse de São João
para entender o pensamento dos rebeldes quanto a “Monarquia ideal” e o “milênio
na Terra”, pois ela leva em consideração a falta de registro por parte dos
vencidos uma vez que com a conquista muitas fontes foram destruídas e muitas
das ações daquele povo era baseado no livro do Apocalipse embora as atitudes dos seguidores de José Maria não
fosse aceita pela Igreja Católica[2].
A autora explica que o conflito
movimentou policiais estaduais de Santa Catarina e do Paraná além do Exército Brasileiro.
O que movia os sertanejos contra o governo era a religião popular, já que ela
ditava as posturas sociais e políticas daquele povo. Os militares, os
intelectuais e a opinião pública entendiam que os caboclos eram ignorantes e o
“fanatismo religioso” era fora de “uso racional”. No entanto:
A guerra sertaneja do
Contestado, irrompeu, em suma, em um momento em que aquelas populações se viram
afrontadas, no seu modo de viver e nos seus valores, e de uma maneira que
transcendia o limite do suportável, porque as mudanças súbitas interferiram, de
forma inaceitável sobre sua autonomia[3].
Percebemos então que o capitalismo
não atendia toda a demanda necessária àquelas pessoas e além do mais de acordo
com a ótica popular a religião representava melhor o coletivo. Aqueles
sertanejos esperavam a vinda do messias, mas antes disso teria que passar por provações
conforme descrito na Bíblia e só assim aconteceria à monarquia celestial que
era sem contradições e injustiça. Isso era uma verdade inquestionável por parte
do sertanejo sulista, pois “o que tiver que acontecer acontecerá”.
O milênio igualitário apresenta-se, em suma, como substituto
de uma ordem vigente, questionada sob todos os pontos de vista, e o seu
substrato é a participação dos eleitos nos assuntos do reino. Estabelecido o
reino, as únicas leis a serem obedecidas serão as do amor fraterno e da justiça[4].
Os milenaristas acreditam que após
um período turbulento chegará uma nova era próspera a partir do Juízo Final. O
fim dos tempos não é temido, porque depois do presente é o milênio (próspero) e
ele acontecerá já e não após mil anos como nos é levado a imaginar. O
milenarismo assim como o messiânismo tem como características fundamentais o
cumprimento de uma vida maravilhosa e inevitável onde o bem vence o mal e o
Mundo fica com a cara de Deus, ou seja, torna-se perfeito. Os textos bíblicos
são interpretados para responder o presente na região do Contestado e a falta
de padres para atender a demanda religiosa dá oportunidade para leigos fazerem
interpretações bíblicas fora do pensamento católico oficial fugindo assim do
padrão de pensamento conhecido e aceito pelo Estado. Os sertanejos viam os
poderosos como anticristo, pois pareciam herdar ambição, perversidade e
avareza. Os monges do Contestado, assim como os profetas bíblicos, são
interpretes da palavra de Deus. O conflito assim se dava através dos justos
(“pelados”, fracos, pobres) contra os injustos (“peludos”, fortes, ricos) e a Besta
representa o último conflito entre o bem e o mal. O novo século seria marcado
por um novo milênio onde a única lei seria de Deus Rei.
Mas, no caso do Contestado,
a Monarquia esperada é aquela prevista no livro da revelação, em que o Rei
chega contra os anciãos e príncipes do seu povo para formar a corte dos homens
bons – a cidade santa. Ali os eleitos participarão do governo, como reis, em
uma monarquia cujos únicos princípios que deverão ser observados são os do amor
e os da amizade[5].
No entanto o que a História
presenciou foi massacre dos “civilizados” (urbanos) sobre a “barbárie”
(sertão), pois a “ciência racional” não foi competente o bastante para
compreender os “pelados” e nem fornecer mecanismo para uma solução pacifica
para o fato.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GALLO, Ivone Cecília D’Avila. O Contestado: o sonho do milênio igualitário. Campinas: Unicamp,
1999.
SILVA, Francisco de Assis; BASTOS, Pedro Ivo de
Assis. História do Brasil: Colônia,
Império e República. São Paulo: Moderna, 1983.
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