Antes do processo colonial imposto pelos europeus, as sociedades africanas eram muito complexas. Cada local possuía uma organização política, econômica e social diferenciada. Devido às várias peculiaridades do continente africano, abordaremos, de forma mais enfática, a África Atlântica (termo referente a África Ocidental e Centro-Ocidental). Isso significa que falaremos de um território que vai do Senegal a Angola onde vieram grande parte dos nossos ancestrais africanos[1].
Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio, apesar de não serem africanistas, em Ancestrais: Uma introdução a História da África Atlântica (livro que mostra a origem e o costume de nossos descendentes africanos), nos diz que as populações africanas eram diferentes entre si, até porque elas estavam em regiões muito peculiares uma das outras, podendo até mesmo não ter contato mútuo.
Dotado de população irregular e desigual, cada grupo estendia ou diminuía suas fronteiras de acordo com a variedade de situações: guerras, aumento de população, secas, ameaças de temidos feiticeiros, podiam levar jovens do sexo masculino a abrir frentes e estabelecer-se em outros territórios nas vizinhanças[2].
Por base na citação acima, percebemos que o comportamento de uma sociedade africana depende do meio em que vive ou das necessidades e oportunidades surgidas. Dessa forma, devido às situações de sobrevivência, as comunidades do continente tendiam a ser migratórias favorecendo o contato entre culturas diferentes apesar de prejudicar a multiplicação das famílias devido à baixa qualidade de vida, fatalmente imposta por variados motivos[3].
Os autores também explicam que a África é um continente com formações de ecossistema muito diversificada, entre os quais: desertos, estepes secas, savana, matas e carrascais, vegetação do tipo mediterrâneo, pantanal e floresta. Independente da região em que se localizavam as várias populações africanas, a adaptação, era difícil, já que necessitava-se de conhecimentos regionais. Isso sem contar com a imprevisibilidade natural como secas, enchentes e ataques de gafanhotos. Esses fatos, juntamente com guerras, abuso de poder e outros fatos eram motivos para se escravizar alguém, podendo ser até mesmo alguma pessoa da família do escravizador.
Outro ponto importante abordado em Ancestrais é que antes mesmo da chegada dos europeus, algumas sociedades subsaarinas africanas, possuíam, em suas estruturas sociais, formação de reinos e impérios. Alguns deles: Reino de Gana ( 900 d. C. – 1110 d. C.), Reino do Mali ( 1200 d. C. – 1450 d. C.), Reinos Sudaneses ( 900 d. C.), Grande Zimbabwe ( 900 d. C.) e Reino de Axum 300 – 700 d. C.).
Não poderíamos deixar de citar as instituições familiares. Como em toda a sociedade ela é de muita importância. Na África Ocidental, devido às várias dificuldades de sobrevivência e com uma expectativa de vida baixa, somada a uma mortalidade infantil considerável, a prole tinha uma atenção muito especial. “Não é à toa, um provérbio iorubá sublinhava: ‘sem filhos, estás nu.’ A virilidade era atributo fundamental para a honra de um homem”[4]. Assim, as mulheres férteis eram muito valorizadas e as estéreis tratadas com desprezo. Os filhos aumentavam o status social dos pais, além de garantir uma vida mais confortável para estes. “Eis porque a captura de prisioneiros quer adultos ou recém-nascido era um dos principais objetivos da guerra. A proteção de futuras mães e filhos era uma das preocupações fundamentais da medicina e dos rituais de feitiçaria”[5]. Não é por acaso que era muito comum retratar através da arte a fecundidade feminina. As mulheres logo que tivessem condição de gerar um filho e tê-lo, procuravam se casar.
A média de filhos era 6 (seis) por mulheres, sendo muito pouco para sociedades que necessitavam de aumento populacional. Uma das causas está no método contraceptivo adotado pelos casais que é no mínimo curioso. Acreditavam que uma mulher que está amamentando não deveria ter relações sexuais, pois isso enfraquecia o leite materno. Então, como havia crianças que mamavam até quatro anos de idade, havia então um período grande sem procriação. Essa idéia não tem comprovação científica por parte das ciências naturais mas isso foi levado tão a sério que percebiam casais dormindo em locais diferentes evitando, assim, a prática sexual[6].
A poligamia tendia a acontecer pois enquanto a mulher estava no período de amamentar, o marido mantinha relações com outra esposa ou amante. “O desejo de aumentar as populações e de colonizar terras dotou a África Atlântica de estruturas familiares específicas e duradouras. A terra era, na maior parte da África, um bem coletivo. Inútil, portanto, conservá-la no seio da família por meio de uniões monogâmicas”[7]. Nessa perspectiva, um homem, ao possuir muitas mulheres e muitos filhos para fazer produzir a terra era considerado bem aventurado. Assim, as mulheres desejavam ter muitos filhos e os homens almejavam casar com uma pessoa bem fecunda capaz de lhe dar muitas crias. Além disso, as concubinas eram consideradas empregadas pelas esposas principais e, por isso, eram bem vistas por elas.
As sociedades africanas poderiam ser matrilineares ou patrilineares. Para Lovejoy: “(...) grande parte da região costeira da África Ocidental era patrilinear, exceto pelo açãs da Costa do Ouro. Na África Centro-Ocidental, os povos seguiam padrões matrilineares, como fazem hoje os seus descendentes”[8]. Dessa forma, as estruturas sociais africanas tendiam a estar relacionada com o parentesco ou com a etnia. Ter parentes na sociedade ou pertencer ao grupo facilitava muita a convivência social, dando um certo conforto.
A África Negra na Antigüidade e no período medieval passava por com um isolamento com outros povos considerável. Percebia-se contatos exteriores somente na costa leste do continente via mar Vermelho e através do deserto do Saara, e algumas exceções devido à recursos naturais, principalmente o ouro[9]. Sobre o ouro: “cinco áreas de produção deste metal foram atraídos para a órbita do mundo não africano: três na África Ocidental ( Buré, Bambuk e bacia do Volta) a Etiópia e o Planalto de Xona, no interior do vale do Zambeze”. Na África, o comércio interno se destacava:
Nozes de cola entre as florestas da África Ocidental a oeste do rio Volta e a savana ao norte; cobre, que era comercializado ao sul do Saara para o baixo vale de Níger e que era também distribuído para o exterior das regiões ao sul do moderno Zaire; sal de muitas fontes, incluindo numerosos locais no deserto do Saara, na costa da Guiné e outros perto dos Grandes Lagos da África Centro-Ocidental. Apesar da sua provável antiguidade esse comércio regional era relativamente autônomo do setor externo[10].
Quanto à escravização do trabalho, variava de região para região. A labuta feminina na terra podia ser majoritária “como os anjincos, do lago Malebo, no atual Zaire”[11], ou poderia ser bem reduzida como era entre os iorubás. O desmatamento era de responsabilidade masculina na maioria dos casos. A prática de plantar tendia a ser uma obrigação de mulheres. Já as colheitas costumavam ser de ambos os sexos. Em linhas gerais, a organização social ideal estava centralizada em um só homem:
Na maioria das regiões a organização social tinha por ideal uma casa grande dirigida por um “grande homem”, cercado de esposas, filhos casados e solteiros, irmãos menores, parentes pobres, dependentes e um grande número de crianças. Unidades assim organizadas, agrupando de dez a quarenta esposas, constituíam grupos de colonização essenciais na África Ocidental[12].
No entanto, apesar disso, em algumas regiões da floresta e da parte sul da savana, as mulheres ditavam o pequeno comércio, tendo uma liberdade rara em relação à outras culturas.
Outro ponto que não poderíamos deixar de dizer é sobre como as sociedades africanas enfrentavam a questão da velhice. À medida que um homem envelhecia ele iria conquistando poderes e respeito em certas sociedades. “A idade garantia o acesso às mulheres, aos deuses e os jovens só lhes dirigiam a palavra de joelhos ou de cócoras”[13]. Ritos de iniciação ocorridos na fase adulta enfatizavam a maturidade e os conselhos dos idosos. “Entre os dogons, desrespeitar um ancião eqüivalia à morte em vida”. No entanto, essa centralização do poder e esse respeito não eram vistos em todas as sociedades africanas. Em alguns lugares a velhice tomava forma pejorativa. “Os povos de Zfé, cidade sagrada de onde viera o primeiro obá do Benim, só representavam seus reis, considerados poderosos senhores espirituais, antes do seu declínio físico. Quando máscaras representavam anciãos, o faziam sempre na forma de caricatura”[14].
Quanto as cidades africanas, percebemos que eram marcadas por uma arquitetura simples. As construções feitas de barro e dendê, apesar de ter pouca resistência, eram comuns no campo e nas cidades. A vida urbana era um local de várias atividades.
Além da importância do comércio, a maior parte das cidades estava estruturada segundo um esquema preciso, compreendendo um plano geométrico a partir do qual se espelhavam mercados, lugares de culto, praças para reunião, quarteirões especializados, casernas, portos, edifícios administrativos e, às vezes, palácios reais. A vida urbana era regida por várias atividades lúdicas: cantos, jogos, danças, sem falar nas cerimônias religiosas tradicionais. Ela estava fundada na organização familiar, na repartição de funções entre homens e mulheres, velhos e crianças. Convenções especiais definiam quase sempre o lugar e o estatuto de estrangeiros[15].
No que tange à educação, ela tinha um certo destaque no meio urbano. Fatos da vida cotidiana eram pretextos para a aprendizagem. A juventude obedecia a uma programação onde exaltassem a absorção de virtudes morais, competências manuais, técnicas e guerreiras, profissões artesanais, comerciais ou até mesmo sobrenaturais. O processo de aprendizagem preocupava também com o desenvolvimento do corpo, com a sociabilidade, com a submissão à ordem, com o respeito aos parentes, ligações de sangues e as autoridades. “A educação se fazia também quer oralmente (contos, mitos e lendas) ou pelo exemplo, mesmo que algumas populações conhecessem e praticassem a escrita”[16]. Isso objetivava eternizar a memória coletiva, perpetuando, assim, a identidade étnica.
Já a ordem era permanecida via decisões penais podendo até mesmo exilar ou matar alguém. “Tribunais, regras de conduta, códigos e procedimentos jurídicos cuja aplicação era feita por magistrados cuidadosamente escolhidos, garantiam o bem – estar e a segurança da comunidade”[17].
Joseph Ki-Zerbo, que apoiado em vários conhecimentos da cultura e da oralidade africana, escreveu o livro: História da África Negra avalia os cmportamentos dos africanos antes da chegada dos europeus. “É em 642 que os Árabes lançam do Egito para Ocidente (Magrebe)”[18]. Graças às guerras e conversão de muitas pessoas houve uma disseminação surpreendente da religião islâmica. Os árabes colaboraram positivamente para a intelectualidade do continente africano:
No entanto, deram à África Negra uma das suas principais religiões e transformaram setores inteiros da sua paisagem sociocultural. Com efeito, os intelectuais árabes, geógrafos e historiadores vão prestar à África Negra o serviço inestimável de dar a conhecer por escrito as realizações sociopolíticas do Bilad es Sudan, a tal ponto que se pode lamentar não terem chegado mais cedo[19].
Os muçulmanos viam nas outras religiões africanas algo não vindo de Deus. Condenavam, entre outras práticas, o holocausto de serviçais e escravos por causa do óbito de algum soberano e as práticas mágicas. Além do mais, o islamismo apresentou uma representação mental mais precisa do Deus Criador e como ficar próximo dEle e pontos de vistas fortes no que se refere ao inferno e, também, ao paraíso, além de outros pensamentos. Já os africanos não islâmicos tendiam a acreditar que os seguidores da religião de Maomé eram poderosos feiticeiros. “A crônica de Gonja coleção de antigos documentos sobre a história do continente, revela que o rei se converteu depois de ter contato a superioridade muçulmana na guerra”[20].
Paul E. Lovejoy, autor do livro: A escravidão na África: uma história de suas transformações, onde ele mesmo fala que o intuito dessa obra é “fornecer um estudo temático da história africana a partir da perspectiva da escravidão. Sua tese principal é de que a escravidão foi transformada, em parte pela dinâmica das forças internas”[21] nos diz em seu livro que os islâmicos tendiam a ser respeitados até porque muitos eram habilidosos comerciantes e, sendo assim, importantes para o continente africano antes da colonização européia[22]. Na África, havia reinos muçulmanos e “pagãos”, mas Gana, por exemplo, recebia contribuições muito importantes entre os dois simultaneamente sendo difícil definir qual classificação religiosa colaborou mais qualificativamente para esse reino. Segundo Joseph Ki-Zerbo, Gana era um reino que possuía duas cidades principais: uma muçulmana e outra “pagã” e não está definido ainda pela historiografia qual seria a capital de Gana. O rei apesar de não ser islâmico tolerava os muçulmanos e sabia aproveitar deles ao usá-los como intérpretes, tesoureiros e ministros. Isso tudo se deve à competência técnica dos islâmicos[23].
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra. 3ª ed. [s. l.]: Biblioteca Universitária, v. 1, 1999.
LOVEJOY, Paul E. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira. 2002.
PRIORE, Mary Del.; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais: uma introdução à história da África -Atlântica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
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