Paulo
Freire mesmo vivendo no período de instabilidade política (por volta de 1964),
foi capaz de elaborar teorias de educação mostrando a prioridade da prática. Ele
propõe prática para alfabetizar e conscientizar as pessoas. As teorias de
Freire ultrapassaram o seu tempo servindo assim para a atualidade. O autor defende
a liberdade e não a imposição. O povo deve interferir ao máximo no vocabulário,
mas o professor deve gerenciar, pois uma palavra é fruto de uma cultura e não
um presente do educador ao educando. O aprendizado deve conscientizar a
situação real do educando.
A
educação proposta por Freire é para homens livres. A educação deve ir contra a
opressão. Maiêutica para homens do povo. Trabalhar a vida concreta das pessoas.
O círculo de cultura tem como objetivo formar grupo de trabalho e debate
buscando consciência da situação social das pessoas envolvidas. Antes da
alfabetização devem-se introduzir imagens sem palavras mostrando situações
reais para debater sobre cultura e trabalho, trabalhando a consciência do real.
A educação se torna crítica a opressão real e luta à favor da liberdade. A ideia
de liberdade só se torna completa quando se une as lutas reais à favor da
liberdade.
O
esforço de mobilização social através da educação começou mais efetivamente com
o populismo, mas foi parado com o golpe de 1964. O trabalho de Freire e
ascensão popular teve relação estreita. O método de alfabetização se mostrava
eficiente em um curto intervalo de tempo no Nordeste em 1962 e logo serviu de
modelo para o restante do Brasil. O medo do comunismo fez com que o método de Freire
fosse criticado pela direita, pois percebia o gérmen de revoltas por parte das
massas.
Conscientizar
não é dar palavras de ordem, mas se após a conscientização existe uma ação é
porque a situação pediu. A educação para Freire era para decidir, ter responsabilidade
social e política. A democracia deve ser praticada para explicar a democracia
(que é uma conquista coletiva).
Desde
o período oligárquico a educação era discursada por políticos que enfatizavam a
importância dela para o bom desenvolvimento do Brasil e também para justificar
a incapacidade política dos analfabetos. No entanto a elite (temendo perder
privilégios) pouco fez para mudar o quadro educacional brasileiro. A decadência
da oligarquia inicia com o crack de 1929 onde também ouve aumento da zona
urbana e das classes populares na política. No entanto, até hoje a oligarquia
possui lugar de destaque na política devido sua importância no passado e no
presente.
Freire
enfatiza o estado de consciência no âmbito pedagógico e não político, mas ele
admite que a conscientização possa levar ao interesse político. Ele percebe que
a sociedade brasileira estava saindo da restrição ao diálogo ao povo para
tendências democráticas. No entanto na etapa de transição a democracia e a
liberdade não aconteceriam sem luta, para o autor.
Nos
anos de 1960 as classes populares eram mais ativas na política que nos anos
1930. As elites antes de 1964 buscavam métodos para domesticar as classes.
Quando a estrutura não permitiu mais isso (devido às pressões populares) veio a
Ditadura Militar. Apesar de não ser o objetivo da pedagogia de Freire, os
círculos de cultura tornaram pessoas politicamente ativas. Devido a grande
eficiência da educação popular, as elites protestaram e o golpe de 1964 sufocou
o método. Como os analfabetos não votavam, a política ficou fora da realidade
do povo. As direitas buscavam mecanismos para não ampliar o eleitorado, pois
temiam a perda de privilégios. Restrição aos analfabetos. O movimento de
educação popular significava aumento do eleitorado e consequentemente risco
para as elites. Os populistas queriam aumentar os votantes para depois
manipular as massas. Após 1930 a elite cafeeira perde espaço para outras elites.
Depois disso, populares urbanos ficaram fortes. Após 1945 as massas passaram
ser importantes para legitimar poder. Os líderes populistas ao buscarem manipular
as massas fizeram pactos onde medidas sociais a favor do povo foram tomadas.
Populista era interpretado como intermediário entre dominantes e dominados.
A
pedagogia da liberdade proposta por Freire é diferente das propostas
populistas, que visavam somente à fabricação de eleitores, pois buscavam a
formação de um homem concreto e crítico dentro das possibilidades de escolha. O
autor defende uma história concreta. Procurava mobilização e prática. A
educação popular serviu “mais a mobilização que à manipulação” (p. 31). Os
populistas prometiam o que não poderiam cumprir às massas e estas esperavam a concretização
de promessas, pois as “as palavras vagas e abstratas tinham vida real” (p. 32).
Os discursos de populistas serviram para criar ideologias nas massas. No
entanto as massas só poderiam dar votos aos populistas e em 1964 ficou sem
ação. Freire se mostrou eficiente em pedagogia democrática, mas deficiente na
organização política até porque políticos se mostravam sinônimos de
manipuladores enquanto educador no raciocínio de Freire é sinônimo de diálogo e
consciência. Assim a educação apesar de perseguições acaba por trazer novos
horizontes.
A
educação para Freire faz uma escolha: 1ª opção: educação para alienação
em favor das elites ou uma 2ª opção: educação que coloque o povo
como agente histórico. O autor buscou a Segunda opção, ou seja, colocar o homem
com sujeito da história através da conscientização e reflexão. Já a elite busca
mecanismos de propaganda para ir contra a educação libertadora.
O
Brasil dos anos 1960 apresentava déficits
quantitativos e qualitativos de educação muito altos e por isso merecia
atenção. O autor observa que o interesse pela educação era muito maior na zona
urbana em comparação com a zona rural.
O processo de educação deveria vir do povo e
não prontas e postas. Assim a alfabetização deveria ser através de elementos do
cotidiano do educando. A alfabetização deveria ser com consciência. Alfabetizar
o homem brasileiro através de sua cultura. O homem deve agir no mundo. Todo
homem é capaz de entender ou de não entender.
Existem
três tipos de consciência segundo o autor crítica (análise dos fatos), ingênua
(crença superior aos fatos) e mágica (poder de fora para dentro que deixa o
homem sem ação).
A consciência crítica “é a representação das coisas e dos fatos como se dão na existência empírica. Nas suas correlações causais e circunstanciais”. “A consciência ingênua (pelo contrário) se crê superior aos fatos, dominando-os de fora e, por isso, se julga livre para entendê-los conforme melhor lhe agradar.”[1]A consciência mágica, por outro lado, não chega a acreditar-se “superior aos fatos, dominando-os de fora para, nem “se julga livre para entendê-los como melhor lhe agradar”. Simplesmente os capta, emprestando-lhes um poder superior, que a domina de fora e a tem, por isso mesmo, de submeter-se com docilidade. É próprio desta consciência o fatalismo, que leva ao cruzamento dos braços, à impossibilidade de fazer algo diante do poder dos fatos, sob os quais fica vencido o homem (p. 113 – 114).
Assim o tipo de ação está relacionado ao tipo
de compreensão. Sociedade em transição e democratização fundamental: educação
de transição e democratização fundamental. A crítica tem que ter sentido
prático para os grupos. Para sair de atitudes mágicas e ingênuas para críticas
é preciso diálogo fora dos padrões tradicionais. O diálogo é a comunicação entre
pessoas com simpatia através do amor, da humildade, da esperança, da fé, da
confiança e da criticidade. O diálogo é indispensável para o homem. Já o
antidiálogo é histórico-cultural no Brasil, o que deve ser combatido, pois vem
de cima para baixo. O diálogo coloca o homem ativo no mundo e não como um
objeto, possibilita o entendimento que cultura é toda criação humana que
independe da sua natureza intelectual.
O debate de cultura faz com que as pessoas
simples sintam orgulho do que fazem já que as pessoas entendem que são
modificadoras do mundo assim como quem escreve um livro. É preciso alfabetizar
para transformar seres humanos em sujeitos e não para motivos mecânicos da
gramática.
Sobre a elaboração e execução prática do
método, o autor nos mostra cinco fases:
1. Levantar o vocabulário (através de encontros
informais) do educandos.
2. Escolher palavras do universo dos alunos
seguindo determinados critérios.
3. Criação de situações existenciais para o grupo.
4. Fichas de roteiros para coordenadores (somente
para subsídios sem necessidade de seguir na integra) e finalmente
5. “feitura de fichas com a decomposição das
famílias fonêmicas correspondentes aos vocábulos geradores” (p.123).
Os domínios de combinações fonêmicas permite
expressão gráfica através dos modelos da fala. Isso permite ao aluno maior
capacidade de independência em relação à criação de palavras e consequentemente
não fica tão refém do professor, pois em alguns aspectos se torna independente ao
mesmo tempo em que dialoga com as pessoas com liberdade. Alfabetizar e conscientizar
permite a auto-politização. Assim podemos dizer que é possível uma Educação como Prática da Liberdade como
propõe Paulo Freire.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. 29ª ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 2006.
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